18 Maio 2008

Verdade tropical

Porque é que os poetas se nos avançam nos sentimentos?
Porque raio nada inventamos, apenas transcrevemos?
Queria escrever sobre o meu fim de semana, estive com o pessoal da SERN - Secretaria de Estado dos Recursos Naturais a dar um mini-curso de cartografia geológica. A ideia é que aquela gente se entusiasme e comece a fazer projectos na área da cartografia geológica, Sector de base necessário a qualquer país.
Bom, quanto ao trabalho, o normal... calhaus, minerais, bússolas, mapas e a torreira do sol. Sobe e desce monte, vê este e aquele calhau. Pega na bússola, escreve no livro de campo e o GPS que dá uma ajuda preciosa.
A tudo isto se sobrepõe, nos orienta e guia uma TODA, ÚNICA e sempre presente verdade tropical - aqui entre o caetano, poeta que inventou o titulo deste post.
Almoço em Manatuto, Ikan (peixe) con Cancun (legumes), que a fome aperta, de tarde mais sol e montes e caminho. Finalmente de volta a casa.
Behau perto do km41, onde se costuma ir mergulhar. Furo, pensamento automático em macacos, mãos sujas de óleo e pneu, um aborrecimento.
Tinha falado ao pessoal nas questões de segurança, cuidados com os materiais e com as pessoas.
Verifiquei que o carro tinha gasolina suficiente, nunca me passaria pela cabeça que o carro não
tinha macaco, ou pneu sobressalente.
41km para Dili...
Já tinha escrito que em Moçambique tudo se resolve, nem que seja com uma chave de fendas.
Nada como relaxar e deixar que as coisas se resolvam - verdade tropical.
Um dos rapazes, falador e divertido manda parar todos os carros que passam, não consigo descrever a sequência, foram muitos, a lista (mal da memória):
- um carro UN (com 2 policias filipinos) proposta levam-nos até um sitio onde temos rede de telefone e podemos telefonar a pedir ajuda;
- dois ou três carros cujo pneu não é compativel com o nosso;
- várias microletes, só para conversar;
- uma anguna curiosa;
- ciclistas que passam para cima e para baixo;
- um primo de Baucau que finalmente nos empresta o macaco e a chave de rodas para tirarmos o pneu - o carro fica apoiado nuns calhaus;
- mais um carro que passa que leva um de nós até ao campo de refugiados em Metinaro, sitio mais próximo onde nos podem arranjar o pneu;
- Uma Anguna e dois outros carrosm só para conversar;
- Entretanto o sol está-se a pôr e para uma pick-up Toyota que nos empresta o pneu sobressalente que trás;
Trocar rápido de pneu e seguir viagem, atentos ao colega que pode estar de volta:;
Em Metinaro o pneu já está pronto, dou 5 dolares porque ninguém tem dinheiro.
Seguimos para Dili, porque eles ainda querem ver o concerto dos Slank, banda da moda Indonésia que veio tocar a Dili.
Com tudo isto, deixo-vos com o Chico e um fado, tropical.

P.S. fotos proximamente.




Fado Tropical
Chico Buarque

Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa"

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

3 Comments:

Blogger VN said...

Pronlema? Não tem problema, problema é não ter problema!
Também faz parte da verdade tropical.
Um abraço de um Maio que mais parece Outuno.

11:23 PM  
Anonymous Anónimo said...

com os contratempos se aprende,vivendo o tempo todo, uma vida vivida e uma vida boa. Uma vida dedicada é uma vida desprediçada.
amidala

12:24 PM  
Anonymous Felicidade said...

E Tu? não foste ver o concerto dos slank?

Depois do contratempo só resta mesmo o fado, o teu fado ... agora mais tropical.

Bjs

Fli

10:29 PM  

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