21 abril 2008

Ataúro

AVISO À NAVEGAÇÃO
Talvez por ter apanhado esta gripe o meu espírito está um pouco sombrio. Suores frios, arrepios e febre não se conjugam com este clima. Em vez de mantas e cobertores continuo a andar de calções e T-shirts. Vagueio mais do que é habitual, encosto-me, espero que os dias passem e que com eles a sezão se desvaneça.

ATAÚRO (8º15'11.7"S,  125º36'25.4"E)
Feito a aviso, Ataúro é um destroço de um navio que enferruja lentamente numa praia de uma ilha deserta.
A vida sofre de arritmia.

Ingredientes:
1 estrada
1 ferry, uma vez por semana
1 estrada que liga o sitio do ferry à vila
algumas camionetas que servem para no dia do ferry transportarem pessoas e mercadorias (estas com prioridade) entre o local do ferry e a "Vila".
1 lingua (Adabe)
3 dialectos segundo a Wikipedia
cerca de 8000 pessoas (mesma fonte)
1 padre mal disposto
2 médicas cubanas
2 eco alojamentos

Passei toda a viagem no Nakroma (o nome do ferry oferecido pela Alemanha e com tripulação indonésia) a ler o Águalusa ("As mulheres do meu pai"), o que significa que estou a ficar sem leitura. Felizmente esta semana há feira do livro em Dili e o PRMendes vai apresentar o Madre Cacau que é o único dele (penso) que não li.
Acabei a arrastar a leitura entre entradas no mar para me desintoxicar os pensamentos..
Lembrei-me da Sophia: "Metade da minha alma é feita de maresia".

Mar, espelho de estrelas. Mergulho nas rendas, do mar.
Quanta poesia existe no mar?
Dormi sempre no alpendre, um casulo que todas as noites tecia feito de lençóis-cama e redes mosquiteiras. Fiquei a tomar conta das ondas e do vento.

A viagem de volta foi feito num barco que faz a carreira de forma irregular (barco de pescadores segundo alguns).
Mar espelho da lua, marinheiros silenciosos distantes na sua vida de ser marinheiro.
Acordei às 2 da manhã (desontem) e fiquei a deixar os minutos escorrerem-me entre os dedos.
Viagem acocorado, deitado, embrulhado na minha manta, adormeço e acordo, e a cada vez que abro os olhos mais um postal feito son(h)o:
- mar espelho de lua cheia,
- véu de noiva feito do brilho dourado da lua,
- contraluz de marinheiro em mar de estrelas,

Terminamos, chegamos, desembarcamos às 6h30, o que interessa é o caminho, não chegar...
Mas alinhado com a estrada que fizemos a pé entre o barco e casa a lua (outra vez), agora amarela agigantada que se põe.
A vida só existe em sonhos.

2 Comments:

Blogger VN said...

Pedro,

bem-hajas por mesmo com febre escreveres assim!

Lembrei-me de outro poema, Mar, um dos meus preferidos, da Sophia :
" De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua."

PS: Enquanto estavas em aturo, recebi de uma amiga o seguinte link para um dos ecolodges http://www.atauroisland.com/content/index.php?&MMN_position=1:1

12:39 da tarde  
Blogger VN said...

Depois das febres queremos saber como se festeja aí o 25 de Abril ...
abraço, beijos e Cravos

4:37 da tarde  

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